Às 4h da manhã, caminhões refrigerados formam fila na BR-232, rumo ao interior de Pernambuco. Dentro, carnes, laticínios e congelados seguem em câmaras mantidas entre -18 °C e 4 °C, dependendo do produto. O trajeto até cidades de médio porte pode levar seis horas — e qualquer falha no equipamento de refrigeração transforma palete inteiro em perda.

O Volume acompanhou durante duas semanas a operação logística de três distribuidores que atendem atacado de alimentos no Nordeste. O cenário comum: CDs bem equipados nas capitais, mas dependência quase total de transportadoras terceirizadas para a última milha no interior — onde cross-docking climatizado é exceção, não regra.

Custo por palete

Gestores consultados estimam que o custo logístico por palete refrigerado para cidades acima de 200 km da capital fica entre 18% e 35% superior ao mesmo destino atendido por operação própria no Sudeste — comparação aproximada, já que mix de produto e volume variam. O diferencial inclui seguro de carga, queima de combustível com ar-condicionado ligado e taxa de espera em centros urbanos sem doca refrigerada.

Alguns distribuidores limitam o raio de entrega de perecíveis ou concentram rotas em dias específicos para otimizar ocupação do caminhão. Lojistas do interior aceitam janelas mais amplas, mas reclamam de ruptura em semanas de calor intenso — quando equipamentos antigos de refrigeração falham com mais frequência.

"Perdemos um contrato inteiro de rede de mercearias porque não conseguimos garantir temperatura em quatro cidades do agreste no verão." — Diretor logístico, operação com CD em Recife

Infraestrutura e investimento

Construir câmara fria e frota própria exige capital que redes regionais nem sempre acessam. Linhas de crédito para frota refrigerada existem, mas exigem garantias que PMEs do atacado consideram onerosas. Enquanto isso, transportadoras agregadas operam com veículos de idade heterogênea — e a fiscalização de temperatura na entrega ainda é visual, não telemetria em tempo real.

Há iniciativas pontuais: um consórcio de distribuidores em Alagoas testa compartilhamento de rota e monitoramento por sensor IoT em parceria com universidade local. Outro player investiu em "mini-hubs" frios em duas cidades do sertão, reduzindo distância da última milha. São exceções que ainda não alteram o padrão regional.

Impacto no preço ao lojista

A conta chega na tabela B2B. Distribuidores relatam três estratégias: repasse explícito como taxa logística, absorção temporária para não perder cliente, ou redução de sortimento de perecíveis em cidades problemáticas — empurrando o lojista a buscar fornecedor alternativo ou aceitar menor variedade.

Para 2026, a aposta de parte do setor passa por veículos elétricos refrigerados em rotas curtas urbanas e por parcerias com indústria para backhaul — caminhão que leva produto acabado e retorna com matéria-prima ou embalagem. Modelos ainda em piloto, longe de escala.

Atualizado em 7 de junho de 2026.